A propósito do debate do Orçamento

Francisco Martins Rodrigues

A cólera surda que cresce no mundo do trabalho não está a passar pelos partidos de esquerda e pelos sindicatos. Estes não estão de modo algum à altura da gravidade da situação e da resposta exigida.

Durante o de­bate do Orça­mento de Estado para 2006, Jerónimo, F. Louçã, Carvalho da Silva denunciaram com razão o de­saforo da política governamental de impor a auste­ridade aos pobres para garantir os lucros dos ricos. Como se pode pedir mais sacri­fícios a quem tra­balha quando se deixam passar entre os dedos milhões de euros de impostos dos capitalistas? Co­mo se pode falar em sacrifícios pa­ra todos, como se a crise fosse igual para todos? Co­mo se pode falar em “privilégios” quando o nível salarial português é o mais baixo da Europa?

A coincidir com o debate no parlamento, a CGTP realizou uma jornada de protesto, partici­pada por muitos milhares de trabalhadores. Está convocada uma semana de luta para Dezembro. Forçoso é contudo reconhecer que o movimento de resistência está longe de constituir um entrave à política do governo. Daí a pergunta: porquê a vio­lência das medidas adoptadas não suscita uma reac­ção popular de grandes proporções?

O problema é que a nossa esquerda realmente existente, PCP, CGTP, BE, continua a concentrar os seus esforços em explicar aos trabalhadores que esta política é má e não lhes convém. Mas isso já eles sabem, mesmo os menos politizados. Quan­do os governantes todos os dias apregoam que o objectivo é “cortar nas despesas”, “facilitar os despedimentos”, “criar condições apetecíveis aos investidores” – não é preciso ser um barra em po­lítica para perceber quem ganha e quem perde com este estado de coisas.

O que falta, o que os trabalhadores não vêem, é o meio para provocar a tão falada “mudança de política”. E é isso precisamente que a esquerda não lhe diz, é aí que a sua linguagem se embrulha, se torna pastosa, sem nada concreto a que as massas se possam agarrar.

A cólera surda que cresce no mundo do trabalho não está a passar pelos partidos de es­querda e pelos sindicatos. Estes não estão de modo algum à altura da gravidade da situação e da res­posta exigida. Prosseguem no ramerrão das nego­ciações, das iniciativas parlamentares e mediáticas, dos protestos verbais, das concentrações com hora marcada, para que o governo “tome nota” do des­contentamento dos espoliados. E o governo toma nota e segue em frente.

A correlação de forças seria bem diferente se tivéssemos partidos e sindicatos com outra linha de conduta, falando aos assalariados dos seus in­teresses e não dos “interesses do país”; atentos a ir directamente às massas lá onde é mais aguda a sua situação, de modo a criar choques com as autoridades; incansáveis na acusação ao sistema e no apelo aos trabalhadores para tornarem o regi­me ingovernável enquanto seguir este rumo. Cla­ro, seriam alvo de imediato de um coro raivoso de acusações de “antidemocráticos”, que “não res­peitam a livre opção dos cidadãos”, veriam os seus militantes ser detidos pela polícia, arriscar-se-iam a perder votos na próxima eleição, perderiam de­certo simpatias nas classes médias. Mas mostra­riam finalmente à massa trabalhadora que podia contar com uma vanguarda disposta a guiá-la para a luta. E aí acabaria o sentimento fatalista de im­potência e surgiria outra dinâmica.

Ao nível do governo e do parlamento, do respeito pelas regras do jogo escolhidas pelos que mandam, o problema é insolúvel. Só se resolverá se intervier uma força exterior às instituições. Esse é o rumo que o PCP e o BE há muito rejeitaram, porque ameaçaria a sua política de integração e compromisso, como oposição dentro do regime, quando é necessária uma oposição ao regime.

A evolução do PCP e do BE vem abrindo um espaço à esquerda que precisa de ser preenchido. Todos os problemas do nosso país confluem num único: temos em Portugal um movimento demo­crático reformista, pequeno-burguês, não uma cor­rente comunista proletária. E essa que se impõe construir.

Política Operária nº 102, Nov-Dez 2005

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