Retomar a ruptura

Francisco Martins Rodrigues

Dir-se-á que a crítica de 1964 [do CMPL, Comité Marxista Leninista Português, fundado por FMR] teve o seu papel no desmascaramento do reformismo, mas que hoje, numa situação interna e internacional completamente transformada, tem um interesse apenas histórico. Creio que é o contrário. Chega agora a vez de a “nova esquerda”, na luta contra o neoliberalismo, nos impingir as velhas receitas do PCP, revistas e aumentadas.

RUPTURA INACABADA

Esta era, porém, apenas uma primeira pedra no lançamento de uma nova corrente política. Para ganhar coerência, seria preciso ir muito mais longe e questionar todo o corpo de ideias em que assentava o movimento comunista internacional, o tipo de sociedade existente na União Soviética e no “campo socialista”, o percurso dos partidos comunistas desde a sua origem, a concepção de partido que se defendia como “leninista”, reformular uma linha de massas de conteúdo revolucionário… Ora, isto implicaria uma ruptura com a corrente “marxista-leninista” que então dava os primeiros passos, amparada no PC da China, e cujo programa era o retorno à política da URSS e do movimento comunista antes de 1956. Nem o CMLP nem os grupos que lhe sucederam ousaram fazê-lo.

A luta de princípios que fora esboçada pela Revolução Popular [órgão de imprensa do CMLP] não teve sequência. Houve pelo contrário um recuo. Não sendo aqui o lugar para um balanço ao movimento “marxista-leninista” português, é um facto que na premência da intervenção política criada, primeiro pela agonia da ditadura, e depois pelo movimento popular de 74-75, a questão da atitude a tomar face à pequena burguesia – autêntico separador entre revolução e reformismo – foi abandonada como inoportuna. O esforço para entender a luta de classes nacional foi substituído pela repetição de fórmulas livrescas e slogans ribombantes. Embora colocando-se à esquerda do PCP, os “M-L” cederam à tendência para deixar ir o movimento de massas à deriva dos sectores “progressistas” da burguesia, sem um alvo revolucionário próprio.

As tremendas dificuldades para fazer face à imensidão das exigências, somando-se aos compromissos consentidos com o nacionalismo grosseiro em que se transformara a bandeira leninista inicialmente arvorada pela China, fizeram o resto. Os “M-L” saíram da crise revolucionária “unificados”, mas numa situação de confusão ideológica, de empobrecimento político e de esterilização dogmática. O naufrágio reformista, já nos anos 80, da corrente “M-L” e da sua principal resultante, o PC(R), tornara-se inevitável.

(…)

 E HOJE?

Quando hoje os arautos da “esquerda moderna” defendem que um amplo movimento anticapitalista e anti-imperialista “não tem nada a ver com os interesses desta ou daquela classe” e rejeitam as “disputas teológicas” sobre lutas de classes e busca da linha justa – eles estão a retomar a velha lógica que o PCP difundiu no tempo do fascismo.

Numa situação radicalmente nova – globalização, revolução tecnológica e informática, neoliberalismo, guerras imperialistas em cadeia – a concepção é basicamente a mesma: substituir a luta de classes pela colaboração de classes. Para os campeões dos “novos movimentos sociais”, a política da esquerda é simples, aberta, intuitiva: “Unir todos os que podem ser unidos na aspiração de um outro mundo possível”, concentrar-se nas causas “abrangentes”, pôr de lado os “esquemas que já não são do nosso tempo”… O vocabulário tem algumas novidades, mas segue a pari passu o espírito da “Unidade de todos os portugueses honrados”, do Cunhal de 1944.

Vai mesmo mais longe. Dantes, “demonstrava-se” que a luta de classes contra o “punhado de monopolistas sem pátria” implicava a fusão das classes antifascistas e exigia-se que o proletariado abdicasse de objectivos próprios e de ideologia própria e aderisse a conceitos “amplos” que facilitassem a unidade. Agora diz-se aos proletários que a sua classe se evaporou, que o próprio conceito de luta de classes terá envelhecido face às novas realidades e que entrámos na época da luta da “sociedade civil” pela “justiça social”.

A falsificação é ainda mais grosseira do que a de há meio século. Por isso, quando nos convocam para a luta urgente contra a máquina trituradora da UE, a globalização, os massacres imperialistas, a crise económica, temos que deslindar primeiro se esses pesadelos significam o mesmo para o proletariado e para as outras classes, se todos têm uma forma comum de os combater e um objectivo final semelhante, ou se nos estão a arregimentar, uma vez mais, para servir de carne de canhão dos “melhoramentos” com que sonham os sectores desfavorecidos da burguesia.

A vida já provou que escolhendo a linha aparentemente mais fácil das reivindicações viáveis (do ponto de vista da ordem burguesa), da associação dos trabalhadores ao movimento da burguesia liberal, o proletariado não tem visto materializarem-se nenhum dos prometidos progressos; pelo contrário, tem tornado mais difícil, mais prolongada e mais dolorosa a caminhada para a emancipação.

Hoje como ontem, o problema da revolução continua a colocar-se em termos da capacidade de o proletariado formular objectivos de classe próprios, desenganchar-se da burguesia democrática e progressista, para poder utilizá-la e não ser utilizado, e assim orientar-se para o derrube do aparelho de Estado, a conquista do poder, a liquidação do capitalismo. Por muito difícil que esse objectivo nos apareça hoje, ainda será preciso demonstrar que nenhuma transformação real é possível fora dele?

(Extractos do artigo de FMR “Nos 40 anos da criação do CMLP: retomar a ruptura”, de Abril de 2004)

Política Operária nº 94, Março-Abril 2004

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