A doença da nossa democracia

Francisco Martins Rodrigues

A obsessão pelas eleições está a levar a esquerda do nosso país da política real para a política virtual.

Perante um sinal de alerta tão grave como foi o facto de ter sido precisa a intervenção da direita para atalhar a carreira destruidora do “santanismo-portismo”, PCP e BE já estão lançados em nova corrida eleitoral, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Todavia, com governo e parlamento a marchar a reboque das transnacionais e das aventuras imperialistas, pode dizer-se que “nunca corremos colectivamente riscos tão grandes”.

A esquerda está a esquecer que o seu terreno de luta não é o parlamento mas a rua, o único sítio onde os verdadeiros deten­tores do poder são de facto vulneráveis. Rendidos à ideia de que “a esquerda, para ser credível, tem que apresentar soluções pela posi­tiva”, PCP e BE produzem catadupas de propostas de lei. Mas há que perguntar: impulsionam o movimento popular ou servem-lhe de sucedâneo e de barreira?

É uma pergunta justificada, porque, com o desemprego a cres­cer, os salários congelados, os direitos laborais recortados, a impuni­dade do patronato a atingir as raias da obscenidade, o movimento popular, em vez de crescer, declina.

A “doença da nossa democracia” de que tanto se fala só se cura com manifestações, greves, cortes de estradas, folhas populares, centros de convívio, abaixo-assinados, núcleos de propaganda – com a intervenção directa das massas em defesa das suas reivindica­ções. E isto não nasce por geração espontânea. Precisa da acção de centenas e milhares de activistas e agitadores, audaciosos, convictos, como já houve no passado. Os quais só voltarão a surgir se a esquerda declarar abertamente a sua razão anticapitalista em vez de fazer propostas de governo. É preciso que a esquerda, em vez de dizer aos trabalhadores: “As coisas só vão melhorar quando votarem em nós”, lhes digam: “As coi­sas só vão melhorar quan­do vocês meterem as mãos no poder”.

A terminar: “No dia 20 de Fevereiro votem em quem quiserem, ou não votem, ou risquem o voto. Como lhes pareça melhor. Com uma certeza, porém: não é disso que depende o nosso futuro”.

(Extraído do artigo “A esquerda e o parlamento”, parte do debate na sessão levada a efeito pela P.O., no dia 19 de Janeiro de 2005, na Biblioteca-Museu República e Resistência, em Lisboa.)

Política Operária nº 98, Jan-Fev 2005

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s