Anti-imperialismo de via reduzida não vai longe

Francisco Martins Rodrigues

Consideraram alguns leitores que o editorial do nosso último número (“A segunda campanha”, P. 0. 86) reflecte uma visão algo catastrofista da situação internacional, por não dar o devido valor à oposição à guerra que se manifesta um pouco por todo o mundo. Tentarei explicar as causas do meu “pessimismo”, sobretudo no que se refere ao movimento no nosso país.

Há nos nossos meios de esquerda uma dificuldade evidente em pôr em marcha um movimento de luta contra o frenesi guerreiro dos Estados Unidos e a cumplicidade rasteira que lhe presta o gover­no português. Não que faltem da parte do PCP, do BE e de outros agrupamentos as críticas severas aos maníacos da Casa Branca e aos interesses imperialistas. Mas o que não se transmite às massas é uma mensagem clara e premente de acção e solidariedade anti-imperialista.

Isso reflectiu-se na concentração de 24 de Outubro, em Lisboa, que, além de tardia, foi modesta em número e ainda por cima morna. Se já todos tiveram tempo de sobra para perceber o bandi­tismo das “razões” ianques, porquê esta falta de motivação? Pode atribuir-se isso à posição periférica de Portugal no conflito; ou aos noticiários contraditórios, que tão depressa anunciam a iminência da guerra como a adiam; ou às dificuldades gerais de mobilização que as forças de esquerda atravessam. Mas há sobretudo outra coisa: uma frouxidão na postura anti-imperialista da nossa esquerda que desmotiva a massa e cujas causas interessa deslindar.

A esquerda (partidos, militantes, activistas, meros simpatizan­tes) sente-se coibida em tomar partido activo contra as expedições guerreiras do Pentágono porque teme ver-se irmanada com ditado­res e terroristas, que são quem aparece no campo oposto. Os argu­mentos de Bush sobre a “defesa das democracias” tresandam a hipocrisia, mas quem se encontra do outro lado? Os fanáticos da Al Qaeda que semeiam a morte às cegas por onde calha; regimes autocráticos, como o de Saddam, o do Irão, o da Síria, o da Coreia do Norte… Até mesmo no caso da Palestina, cuja razão se mete pelos olhos dentro, a esquerda não sabe como apoiar francamente uma luta que recorre aos atentados indiscriminados contra civis.

O ESCOLHO EM QUE A ESQUERDA TROPEÇA

A esquerda não sabe como desenlear-se da questão do terroris­mo. Se acha o imperialismo mau, também considera que o terroris­mo não lhe fica atrás, pelo que, entalada entre dois campos igual­mente inaceitáveis e receosa de se isolar do sentimento da maioria da população, acaba por remeter-se a posições frouxas.

A coisa vem de longe (poucos lembram já a vacilação do PCP quando se iniciaram os levantamentos “terroristas” em Angola), mas acentuou-se há um ano, quando o PCP e o BE cometeram o grave erro de se associar ao repúdio e ao luto por ocasião do “omi­noso” atentado do 11 de Setembro. Que não foi uma mera “escorre­gadela” sob o efeito da emoção do momento mostrou-o a sequência dos acontecimentos, o seu discurso ambíguo e a sua intervenção prática hesitante, de modo nenhum à altura de uma situação em agravamento constante.

Parece óbvio a muitos que a esquerda não pode fazer outra coisa senão condenar explícita e vigorosamente a barbárie dos aten­tados que matam à toa gente inocente. “Com que autoridade pode­ríamos condenar os crimes do imperialismo se fizéssemos silêncio sobre os que vêm do outro lado?” Mas este raciocínio “elementar” esquece que a nova barbárie dos atentados contra cidadãos inocen­tes do “primeiro mundo” é uma retaliação artesanal, em peque­na escala, contra a barbárie industrial longamente exercida pela nossa “civilização ocidental democrática”, sobre milhões de ino­centes no “terceiro mundo”. Só se espanta com o recurso ao terro­rismo como arma da luta política do “terceiro mundo” quem ainda não se deu conta de que ele vem sendo aplicado ininterruptamente há meio século (para não ir mais atrás) pelo Ocidente “civilizado” sob as designações de “pacificação”, “luta anti-subversiva”, ou sim­plesmente, “ajustamento estrutural”…

Condenar o “duplo terrorismo” e a violência, “venha donde vier”, pode dar a mentes “democráticas” tacanhas uma ilusão de objectividade mas é esquecer que a balança da violência se inclina brutalmente para o “nosso” lado e que a espiral do terror não foi escolhida pelos oprimidos mas foi-lhes imposta pelo acumular de prepotências dos dominadores.

Reconhecer “generosamente” aos oprimidos o direito de se rebelarem, desde que não recorram a actos bárbaros, é não ter em conta que a desproporção esmagadora de meios de luta acaba por só lhes deixar a via dos atentados contra a população civil, para procurar que ela se canse e retire o apoio à política imperial.

Alegar que os kamikazes, fanatizados por gente poderosa sem escrúpulos, nada têm a ver com o sentimento dos seus povos é insistir na mentira com que os colonialistas sempre tentaram negar o ódio nacionalista profundo que a sua dominação desperta.

Quer isto dizer que a esquerda num país imperialista (e Portu­gal, mesmo periférico, é parte do segundo maior bloco imperialista) tem que manter uma firme vigilância para não permitir que o repú­dio pelo terror obscureça a razão fundamental dos povos opri­midos e agredidos.

Vigilância firme, porque o resultado imediato dos atentados é provocar nas populações dos países imperialistas uma reacção espontânea, cega, de apoio ao seu próprio regime. Sentimento aliás bem expresso por um editorial recente da nossa imprensa quando constatava que “passámos a estar à mercê de quem não aceita as mesmas regras que nós, e quer destruir aquela zona de segurança a que estávamos habituados no nosso dia-a-dia”. O enorme valor das manifestações pacifistas que percorrem as capi­tais da América e da Europa não pode esconder o facto de que a maioria da população desses países segue o reflexo de procurar a segurança junto dos seus governantes. É assim que a maioria dos norte-americanos alinham atrás de Bush; que os israelitas aprovam o tratamento feroz dado aos palestinianos; que grande parte dos espanhóis enfileira ao lado do seu governo contra os atentados da ETA, sem querer saber da razão da causa basca; etc.

A esquerda tenta adoptar face aos atentados uma insustentável posição equidistante porque receia dizer duas ou três verdades sobre o assunto: 1) Os atentados terroristas são uma resposta ao terror imperialista, portanto é aqui que o problema deve ser resol­vido, na luta contra os nossos governos; 2) Não somos adeptos do terrorismo para “excitar” as massas adormecidas, mas reconhece­mos aos movimentos revolucionários o direito de recorrerem ao terror como resposta ao terror reaccionário; não aceitamos as inti­mações dos salteadores para “repudiar o terrorismo sem ambigui­dades”; 3) Estamos com as vítimas do imperialismo, sejam quais forem os meios de resistência que utilizem, porque da resistência deles depende também a nossa salvação.

A TRETA DA “SUPERIORIDADE DEMOCRÁTICA”

A outra causa da vacilação da esquerda é o receio de ficar no campo errado quando ditaduras e democracias entram em conflito.

É tão grande nos centros imperialistas o condicionamento das massas (inclusive dos mais pobres) acerca da “superioridade do nosso modo de vida” que elas aceitam como normal, sem se dar conta, a escravização do resto do mundo. Do facto de a democracia burguesa ser um regime incontestavelmente mais avançado e mais livre do que as sociedades pré-capitalistas parte-se para a conclusão implícita de que os impérios democráticos têm direito a dominar os países do “terceiro mundo”.

Se a condenação da opinião pública europeia ao sionismo não está de modo nenhum à altura da selvajaria que este vem exer­cendo ao longo de meio século sobre o povo palestiniano mártir é em boa medida porque Israel é “democrático” (tem assembleia, partidos, eleições, imprensa pluralista), enquanto os regimes árabes que o rodeiam são obscurantistas e autocráticos. Por ser membro do “campo democrático”, ainda que “transviado”, Israel tem uma margem especial de tolerância. Tal como os Estados Unidos, aliás: podem ser arrogantes, violentos e usar meios sujos, aniquilar milhões  de seres humanos, mas, no fim de contas, trata-se de um império “democrático” em luta contra regimes totalitários, como o de Saddam, a Coreia do Norte, o Irão, a Síria, a Líbia… E a França, nação cem vezes mais democrática do que os obscuros e corruptos regimes africanos de cujo destino ela põe e dispõe? Como se vê, o critério da legitimidade democrática é muito útil aos imperialistas porque lhes dá infalivelmente “boa nota” e reprova os oprimidos, que nunca são suficientemente civilizados.

Tal qual como no tempo da expansão colonialista de fins do século XIX, em que se proclamava com toda a boa consciência “o direito de a civilização erradicar a barbárie”, agora, a missão das grandes potências consiste em “implantar a democracia e a segu­rança” no mundo. As sórdidas aventuras do capital são transfigura­das em causas nobres: “desarticular os focos do terrorismo” na Ásia Central, “erradicar os cartéis da droga” na Colômbia, “pôr termo à anarquia” na Somália, libertar os kosovares do “novo Hitler”, instaurar um regime laico no Afeganistão ou retirar as armas perigosas das mãos do ditador paranóico de Bagdade…

A esquerda denuncia esta ideologia imperial, é certo. Porém, receosa de ser apelidada de antidemocrática, amarrada ainda ao dever de penitência pelos seus pecados passados (o malfadado apoio ao “totalitarismo”), cai frequentemente numa posição intermédia, aparentada com a dos governos europeus ditos “pacifistas”: “Nem Bush nem Saddam”, “nem imperialismo nem fanáticos islâmicos”, “desarmamento do Iraque pela ONU”. Mas este progressismo de meia tigela concilia com o cínico critério de que um país pode ser democrático dentro das fronteiras e terrorista para fora delas, absol­ve os carniceiros que governam o mundo, não entende que a fonte donde brotam os regimes ditatoriais e obscurantistas do “terceiro mundo” é precisamente esta nossa “civilização democrática”: por­que impede a evolução dos países pobres, desarticula as suas econo­mias, massacra as forças progressivas que neles emergem, e a cada passo, lhes impõe torcionários fascistas. Ao conciliar com a crença na superioridade da “nossa” democracia (não prescindindo de lhe fazer críticas e propor melhoramentos, é claro), a esquerda esconde às massas a dimensão do banditismo imperialista, o nível explosivo que atingiu o abismo entre metrópoles dominantes e nações subjugadas.

A ESQUERDA ENLEADA NA TEIA DAS SUAS CEDÊNCIAS

Está mais que provado que o que há de novo na situação interna­cional não é a erupção “irracional e selvática do terrorismo” mas a entrada do imperialismo numa nova partilha do mundo, acirrada pela crise económica, com a rivalidade crescente EUA-UE a mergu­lhar os países pobres na catástrofe económica e numa sucessão de guerras. A “demência guerreira” de Bush corresponde à decisão premeditada da classe dirigente ianque de explorar ao máximo a sua superioridade militar esmagadora para ditar a lei às potências rivais. Como disse um Bush eufórico, “possibilidades ilimitadas se abrem à nossa nação”, “esta é uma grande oportunidade, consen­tida a poucas nações na história”. Aos povos do “terceiro mundo”, como de costume, o encargo de pagar a factura.

E, como sempre, a escalada da agressividade imperialista tem também consequências no interior das metrópoles: agrava a desmo­ralização e a alienação das massas e acirra o seu chauvinismo laten­te. A esquerda não lhe fica imune. À medida que os antago­nismos se agravam mais forte é a tendência para a esquerda cair no campo dos “valores da nossa civilização”, fazendo uma oposição coxa, vacilante, ao rumo reaccionário da política.

A esquerda no nosso país, com uma longa história de estreiteza reformista, e que, ao longo destas três décadas de “normalidade democrática”, se foi deixando enlear na teia da legalidade institu­cional, agora, quando o conflito se agudiza, tenta fugir às demarca­ções cortantes e manter-se sentada em duas cadeiras: “solidária com os povos” mas solidária também com os “valores democráti­cos”, para não perder as pequenas vantagens que o sistema lhe proporciona. Em vez de ser chamada a primeiro plano, a causa do anti-imperialismo é remetida a lugar secundário, para não prejudi­car as frentes eleitoralmente mais rendosas. A tentação é grande para deslizar para o campo da “pequena esquerda”, adoptando contra o chauvinismo histérico dos falcões um chauvinismo “mode­rado”, aceitável para uma opinião pública intoxicada.

Para justificar este rebaixamento, invoca-se usualmente o álibi de que uma postura anti-imperialista humanista e difusa, de meias-tintas, terá a vantagem de juntar muita gente e criar um movimento amplo e poderoso. Mas isto é falso. Na ausência de um sólido núcleo anti-imperialista, radical, convicto, isto é, anticapitalista, nunca mais se gera uma dinâmica capaz de despertar a grande massa e trazê-la à acção.

O que está a impedir a esquerda de entrar na batalha anti-imperialista é o receio de despertar um coro furioso de acusações da opinião “democrática”, de perder apoios, ser marginalizada, perder votos nas eleições, etc. É uma opção que terá consequências graves.

Se queremos realmente ter em Portugal uma oposição eficaz às aventuras imperialistas, de que os nossos governos são miseráveis comparsas, precisamos de uma agitação e propaganda que não gagueje nem se remeta à defensiva quando são chamados à discus­são os temas do terrorismo, da democracia, das relações entre países “avançados” e “atrasados”; que revele incansavelmente a dimensão odiosa dos crimes imperialistas; que diga sem meias palavras que a causa de todas as doenças está no capitalismo agonizante e a cura só pode vir da contestação aberta da ordem infame que domina o mundo.

Política Operária nº 87, Nov-Dez 2002

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