Vem aí o fascismo?

Francisco Martins Rodrigues

Há quem monte vigilância para não deixar entrar o fascismo pela porta e não o veja entrar pela janela…

Áustria, Itália, França, Dinamarca, Holanda… No meio de inter­rogações e protestos, a extrema direita europeia vai abrindo caminho como uma força política que já não pode ser ignorada. Os adeptos da teoria de que a normal rodagem do sistema democrático é o melhor modo de afastar o perigo fascista ficam embaraçados perante o apoio popular crescente aos Le Pen e Haider. Tem que se pôr a pergunta: corre a Europa o risco de ver os neofascistas no poder?

Há quem alegue que esta nova extrema direita inserida nas ins­tituições nada tem de comum com o fascismo clássico, e é de facto difícil ver ditadores em potência nos Le Pen ou Haider. Mas também é ingenuidade demasiada esperar que eles digam agora tudo o que pretendem. Para já, precisam de conquistar força eleitoral afastando receios. O seu verdadeiro rosto e os seus verdadeiros líderes só noutras condições surgirão.

Asseguram outros que não há razões para alarme porque o voto nessas forças seria apenas um voto de protesto, sinal de saudável inconformismo de certas franjas da população. Mas isto é esquecer que o descontentamento desses eleitores tem um sinal muito espe­cial: eles querem um Estado forte e uma polícia “musculada” que meta na ordem a juventude dissidente e feche os imigrantes em guetos ou os expulse. Uma boa parte do eleitorado europeu defende uma política reaccionária.

Naturalmente, esses votantes na extrema direita são pessoas co­muns. São pequenos comerciantes e artesãos enraivecidos contra os regulamentos de Bruxelas e contra os “vadios” que vivem à custa do rendimento mínimo; camponeses em desespero devido à concor­rência demolidora das multinacionais; reformados, sensíveis à intoxi­cação sobre a insegurança; jovens totalmente despolitizados, que julgam assim exprimir a sua rebeldia contra o trabalho precário; assalariados, saturados das trampolinices dos partidos do sistema, operários de regiões industriais sinistradas, triturados pela engrena­gem das “reestruturações” e pelos despedimentos em massa, que chegaram ao ponto de ver uma última esperança em demagogos reles. Por duro que pareça, quem recolheu mais votos operários nas últimas eleições presidenciais francesas foi Le Pen.

E assim como os antigos fascistas cresceram ao canalizar as frus­trações dos sectores populares desorientados para um alvo preciso (a “conspiração judaico-plutocrática-bolchevista”), também o fascis­mo actual cresce apoiado no novo bode expiatório – os imigrantes africanos e árabes, que “trazem consigo a miséria, a insegurança e, quem sabe, os atentados terroristas”… A divisão da classe operária entre nacionais e imigrantes, concorrendo entre si e ignorando-se mutuamente, é hoje, sem dúvida, um imenso factor de risco que a campanha “antiterrorista” veio acentuar.

Não tenhamos dúvida de que começam a reunir-se na Europa os ingredientes propícios para um ascenso fascista. Na sua esmagadora maioria os votantes nos Fortuyn, Haider, Le Pen e Cia. não são adeptos conscientes do regime fascista. Tal como não o eram os milhões que há 70 anos elegeram Hitler. Aspiram a um Estado que os proteja da crise e lhes dê ordem e sossego – e isso conduz ao fascismo.

Mas isto não quer dizer que o perigo fascista se esteja a materia­lizar pela sua face mais visível, pelos Le Pen e Cia. Ele tem outra face menos espalhafatosa mas muito mais poderosa. Como acaba de se ver em França: em “defesa” contra o fascismo, eleger políticos “demo­cratas” cada vez mais reaccionários, que em nome do “Estado de direito” vão tranquilamente tomando as mesmas medidas propostas pelos fascistas. Para Aznar, Chirac, Schroder, a extrema direita é útil porque cria o ambiente de pânico securitário e de desorientação pro­pício às medidas que eles próprios têm que adoptar. Como dizia há dois anos o fascista austríaco Haider: “Comparem o meu programa com o de Tony Blair e vejam como são semelhantes”. Os neofascistas abrem caminho, os “democratas” levam à prática.

Porque a realidade é que as classes políticas dirigentes europeias, hoje, seja qual for a sua tendência ou o seu emblema – liberais, socialistas, cristãos, verdes, ecologistas, “comunistas” -, sempre que passam pelo governo, cumprem o programa fascizante que lhes cabe como comissários da grande Europa do Capital: poder irrestrito das multinacionais, corte nos gastos sociais, desorganização do movi­mento operário, repressão dos imigrantes, montagem de um mons­truoso sistema de vigilância, bombardeamento mediático, criminalização dos movimentos dissidentes, participação em expedições imperialistas.

Nesta época de agonia do sistema, a democracia burguesa tam­bém agoniza, o fascismo brota por todos os poros do regime político. A burguesia não pode dispensar uma sociedade sem entraves à caça ao lucro, “bem ordenada”, de pensamento único, embrutecida pela alienação e pelo medo – e isto é fascismo. Um fascismo diferente do antigo, claro, com armas nucleares, vigilância electrónica, uma máquina mediática avassaladora, a corrupção universal – e que por isso mesmo precisa de ser administrado por aparelhos altamente profissionais.

A grande desvantagem dos Le Pen, Haider, Bossi, Fortuyn, etc., em comparação com os seus antecessores é pois essa: os homens do grande capital não estão ainda a apostar neles como forças de governo porque confiam as tarefas essenciais da fascização da sociedade aos partidos e aos meios “democráticos”. Aos fascistas é atribuído o papel auxiliar de catalisadores de correntes reaccionárias. Por isso mesmo não recebem meios financeiros e apoio policial e mediático para criar milícias armadas e partidos de massa.

Mas não haja dúvida. Se amanhã, em situação de crise e de convulsão, os grupos financeiros que governam a Europa resolverem apostar em governos “fortes”, os tarados folclóricos de cabeça rapada e braço estendido voltarão a ser uma ameaça mortal. A burguesia chamará ao activo as suas forças políticas de reserva. Os partidos fascistas de combate surgirão. O terrorismo na Itália dos anos 70 foi uma boa indicação a esse respeito.

Os apelos à frente comum com os grandes partidos do sistema para “barrar o caminho ao fascismo” levam-nos directamente para a boca do lobo. Entre os grandes partidos “democráticos” e os neofas­cistas há uma corrente contínua. A luta directa contra os neofascistas tem que ser inscrita como parte da luta geral contra a “democracia” fascizante do grande capital, pela expropriação da burguesia, pela democracia dos trabalhadores. 

Política Operária nº 85, Maio-Junho 2002

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