A insustentável leveza da esquerda

Francisco Martins Rodrigues

O recente debate na imprensa sobre o “futuro da esquerda” teve pelo menos um mérito: confirmou que não há esquerda neste país.

Com o PS fora do governo, era fatal, reactivou-se outra vez o debate em torno do futuro da esquerda, a reinvenção da esquerda, a ética da esquerda e temas afins. A discussão foi detonada pelo projecto de “declaração de princípios” (?), com vista ao próximo congresso do partido. O estilo liberal “terceira via” do documento de Santos Silva causou arrepios a Alegre, Mário Soares, Medeiros Ferreira, que vieram alertar contra o “perigo de descaracterização do partido”. A sua vigilância provou-se meritória, porque a decla­ração depressa foi emendada com uns ramalhetes “antiglobalização” e a calma voltou às hostes socialistas.

Ficámos, entretanto, enriquecidos com o substrato ideológico da polémica. Veja-se o artigo de Mário Soares no Expresso, “Ser de esquerda, hoje”, verdadeiro monumento de vacuidade retórica e de hipocrisia. Para lá do paleio em que nos assegura que sempre se situou sem ambiguidades no campo da esquerda (!) e que “faz todo o sentido continuar a ser de esquerda”, o sumo é o seguinte: a esquerda (isto é, o PS) errou, devido à sua ânsia de se adaptar às necessidades do mercado global; a esquerda deverá contrapor à globalização em curso, depredadora e imoral, “uma globalização alternativa, ética”, porque “não pode ser a economia a conduzir o mundo”. Mas, pergunta-se, como praticará a esquerda essa boa globalização se, o próprio Soares o reconhece, está instaurado “o domínio do mundo pelas multinacionais, afirmando o poder absoluto do dinheiro” e se os capitais castigam com o boicote ou a subversão qualquer medida que belisque minimamente os seus interesses? Muito fácil, diz Soares: a esquerda deverá caracterizar-se pela boa governação, a devoção ao bem comum, a generosidade, a solidariedade…

Com esta pirueta ridícula, Soares está implicitamente a confes­sar que não tem solução para o problema e que a sua alternativa de “governo de esquerda” consiste em fazer a mesma política do PSD-CDS ao serviço do grande capital, só que adornada com uns tantos paliativos e promessas, que ajudem os trabalhadores a engolir a pílula.

Mais explícito ainda foi Prado Coelho, nas suas crónicas no Público. A esquerda, recomenda, deve fugir dos “modelos de uma sociedade perfeita” e da tentação de procurar impô-los à realidade. Não quer dizer que se abandone a palavra “socialismo” (o emblema socialista é útil porque “dá uma caução popular”, observa com desfaçatez), mas a socialização dos meios de produção “está deslo­cada nos dias de hoje”. O que interessa a um governo de esquerda é “preservar uma certa margem de manobra”. Partindo do princípio de que “não há democracia sem economia de mercado”, cabe à esquerda garantir que “a liberdade dos agentes do mercado não impeça cada um de procurar a sua felicidade”.

Devoção, generosidade, solidariedade, para alcançar a felicidade – assim, esvaziada no terreno político, a social-democracia está a transferir-se para as alturas do puro espírito. De resto, o próprio Prado Coelho o afirma, o tempo das lutas de classe passou à história. A ideia de um confronto entre as multidões de injustiçados e o “punhado de ricos capitaneados pelo Tio Sam”, explica, “pode ser muito verdadeira mas não tem hoje a mínima pertinência política”. Hoje “é a batalha das ideias que conta”. “Por exemplo, a luta essen­cial contra a exploração da nova classe operária no Terceiro Mundo não passa pelas lutas dos próprios trabalhadores, mas pelos boi­cotes dos consumidores e as normas ecológicas e sociais impostas, nos mercados ricos, por campanhas mediáticas”.

ENTRA O BLOCO

Francisco Louçã não quis deixar de entrar no debate. Mas, se a ideia era mostrar a diferença entre o Bloco e o PS, falhou em toda a linha. Quando os aderentes do Bloco esperariam que traçasse uma linha de separação clara entre o degradante abandalhamento da ideologia social-democrata, podre até à medula, e a esquerda real, que só pode ser uma corrente anticapitalista, subversiva, de massas, veio propor (Expresso, 17/8) um “projecto maioritário para uma mudança social profunda, para uma modernização democrá­tica”, fórmula mais do que ambígua, que se realizaria, para já, em “três grandes objectivos”: pleno emprego, serviços públicos de qua­lidade e “mais Europa” (!).

Desde logo, o que choca neste projecto de Louçã é a modéstia dos objectivos. Nem sequer tento comentar a sua opinião de que “na crise actual, o aumento de consumo e salários deve ser condi­cionado” quando nada diz sobre o “condicionamento” dos lucros. Mas pergunto: porquê definir a esquerda em torno desses três objectivos, e não pela reversão para o Estado das empresas de serviço público privatizadas, ou pela anulação dos decretos anti-operários dos últimos 25 anos, ou por uma reforma fiscal apontada contra os ricos, ou por uma nova reforma agrária, ou pela dissolução da polícia secreta, ou pelo fim da concessão da base das Lajes aos EUA, ou pelo corte de relações com Israel?

Louçã dirá que essas medidas não são viáveis numa perspectiva de médio prazo, e se calhar tem razão. Mas isso conduz-nos à ques­tão de fundo, que ele não tenta sequer abordar no seu artigo: como se pode defender hoje no governo os interesses das massas assalaria­das se os potentados económicos que detêm o poder real não o permitem? Pode a esquerda ter, nas condições actuais, um programa de governo ou deve ter um programa de luta contra a ordem existente?

Justamente, quando liga as perspectivas de reorganização da esquerda a “um novo alinhamento… um cosmopolitismo moderno que responda aos grandes problemas do século XXI, a droga, a imigração, a pobreza, a sida”, Louçã está a confirmar que vê a missão da esquerda circunscrita à luta por reformas no sistema, e não apontada para a subversão deste.

E quando reivindica “mais Europa”, associando a este slogan a ideia de que o progresso da integração europeia fará surgir a tão esperada política social, a democratização das instituições europeias, a Europa “factor de paz”, etc., está a esquecer que pedir “mais Europa” equivale a pedir mais poder das multinacionais, mais polí­cia, mais guetos de imigrantes, mais exército, mais aventuras mili­tares, porque é esse o código genético da União Europeia capitalista.

Pode a esquerda ter outra política em relação à UE que não seja a luta pela união do proletariado, pela união livre dos povos europeus, o que significa o desmantelamento do superestado que os mono­pólios capitalistas hoje edificam?

Por tudo isto, acaba por se entender, mas não se aceita, que Louçã faça o elogio de Mário Soares, a pretexto de que o seu artigo, “definindo a fronteira da esquerda na crítica à globalização” pertur­bou os arautos da direita -“bom sinal”. Soares não definiu fronteira nenhuma; apenas procurou, com a sua manha proverbial, abrir espaço para o PS retomar a sua “vocação federadora das esquerdas”, isto é, trepar às costas do PCP e do BE para voltar para o governo, a fazer a mesma política. Querer ver nisto um “bom sinal” parece cegueira de mais.

As “ideias fortes” de Louçã situaram-se de tal modo no campo do “socialismo democrático” que deram azo ao comentário cínico de Vitalino Canas, dias depois, no mesmo jornal: “O BE parece aceitar centrar as suas posições políticas num espaço que tem muito de comum com o do socialismo democrático e pouco que ver com o radicalismo revolucionário esquerdista dos seus genes. Com isso o BE terá já cumprido parte importante do trajecto de aproxi­mação a uma solução governativa de esquerda”.

Só falta agora, conclui paternalmente Canas, dar mais alguns passos e reconhecer que liberalismo não é o mesmo que conser­vadorismo e vencer a “dificuldade com que o BE lida com os temas da segurança e da soberania”. Se isso for feito e se houver boa vontade de parte a parte, o encontro entre PS e BE será possível.

Não havia necessidade de o Bloco ser assim enxovalhado.

A crise da nossa “esquerda realista” (e isto diz respeito tanto ao PS como ao PCP como ao BE) resulta do constante estreitamento do espaço para o reformismo. A concentração vertiginosa dos capi­tais, ao gerar um Estado cada vez mais tentacular, repressivo, cor­rupto e anti-operário, torna impossível a aplicação no governo de qualquer política que não agrade às multinacionais e aos grandes centros imperialistas. Isto faz com que, na ausência de uma crise social profunda, de uma forte acção independente das massas, capaz de arrancar concessões sérias ao poder e impor medidas populares, os partidos reformistas só vão para o governo praticar a política do capital, fazer a “alternância” quando os partidos de direita estiverem desacreditados.

A “crise da esquerda” não deixará pois de se aprofundar nos próximos anos. E uma nova esquerda, real, isto é, revolucionária, irá renascendo à medida que ganhar corpo uma corrente que man­de ao diabo os cálculos eleitorais, se deixe de miríficos programas de governo e aposte na orientação da luta diária das massas mais exploradas e oprimidas no sentido da hostilidade ao regime, da ruptura com o regime. Já sabemos que esta esquerda não será aceite no chamado campo do “socialismo democrático”, que será excomungada e perseguida como “totalitária”, mas será uma esquerda real – isto é, a acumular forças para a revolução.

Política Operária nº 86, Set-Out 2002

 

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