UE – a burla

Francisco Martins Rodrigues

De cada vez que se reúnem as instituições dirigentes da UE as cidades são postas em estado de sítio e a polícia espanca milhares de manifes­tantes. Como ainda agora em Barcelona. Esta é a verdadeira Europa que está a ser criada. Mostra o que vale a retórica sobre a democracia das instituições europeias, a convergência das economias, o Estado de direito, o papel da Euro­pa na defesa da paz mundial, etc., etc.

A “Europa social” é uma burla. Se des­cermos das alturas da propaganda à crua realidade do capitalismo, teremos que constatar que a criação de um mercado único envolve necessariamente o reforço do poder dos grupos financeiros gigantescos sobre toda a economia e portanto um aumento do expansionismo, da agressividade e da exploração dos trabalhadores. A Europa está ansiosa por superar os Estados Unidos na “competitividade, racionalização e redução de custos” – à nossa custa.

A “Europa dos povos” é uma burla. As nacionalidades não se vão fundir numa nacio­nalidade “europeia”; as principais vão submeter ao seu controlo as mais fracas. Os interesses económicos não se diluem num interesse geral; os grandes submetem os pequenos. As diferen­ças não se esbatem, acentuam-se. E como é de lei em todos os processos imperiais, estabelece-se uma hierarquia de poderes, com o núcleo central a comandar os núcleos secundários, que por sua vez governam os periféricos. É aí, na periferia, que se encontra Portugal.

A “Europa pacífica” é uma burla. O que se está a construir na Europa é um império rival do império americano. O grande capital europeu quer disputar aos EUA mercados e esferas de influência, ter uma parte maior na devastação do Terceiro Mundo. O eixo da “construção euro­peia” são os armamentos, o exército e a polícia. O resto é folclore.

Conclusão: A esquerda que aceita a UE e se limita a propor-lhe correcções não é “moder­na”, é estúpida. A esquerda não tem que pedir desculpa por si ter oposto à integração, como se tivesse travado uma batalha errada. A luta contra a UE é justa porque o avanço da “cons­trução europeia” não é uma vitória dos povos, é uma derrota. Por isso, a esquerda real, defensora dos interesses do proletariado, justamente por­que é internacionalista, repudia o projecto capi­talista europeu, luta contra ele, sabota-o. Só assim caminharemos para a autêntica Europa social, para o derrube e expropriação do capital, para o socialismo.

Política Operária nº 84, Mar-Abr 2002

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