O terramoto

Francisco Martins Rodrigues

O terror é há meio século o principal produto de exportação dos EUA. Agora prometem mais.

 Só agora perceberam – A América entrou em guer­ra, proclamou Bush. Acordou tarde. A guerra dura há bom meio século. Só que o campo dos vencedores, ao abrigo das bombas, do napalm, dos estripadores “da liberdade”, ainda não tinha dado por ela. A grande diferença é que, a partir de agora, o medo está nos dois campos. Foi isso que os árabes celebraram nas ruas. É feroz, claro, mas a guerra não é para ser feroz?

“Hoje somos todos americanos” – Eu não! Como hei-de ser americano se já sou vietnamita, coreano, chileno, argelino, argentino, colombiano, panamiano, sal­vadorenho, guatemalteco, ira­quiano, sérvio, curdo, somali, angolano, moçambicano…?

Fanáticos loucos? – Claro, loucos de ódio, fanatizados pelo desejo de vingança que pulsa em centenas de mi­lhões pelo mundo fora. Que imbecis os argumentos de que “o terrorismo não tem nada a ver com a globalização” porque os suicidas não eram pobres “e até tinham cartões de crédito”!

Como se actos desta natureza não demonstrassem, por si mesmos, a enorme carga de ódio e desespero recalcados de povos inteiros! Como se os fanáticos dispostos a tudo não fossem o produto de multidões espezinhadas!

O mundo real bate à porta do mundo virtual – A cegueira não foi dos serviços secretos. É a cegueira das socie­dades ricas que olham a multidão dos famintos do planeta como um cenário horrível e pitoresco onde se vai fazer turismo. Têm muita pena da miséria, das doenças, das guerras devas­tadoras, mas não podem fazer nada senão organizar uns es­pectáculos de caridade e calcá-los sempre um pouco mais para garantir o seu bem-estar.

E agora, depois deste despertar brutal, vão finalmente mu­dar de atitude, como asseguram as almas piedosas? Impossível. A única saída que conseguem divisar é garantir a “segurança do planeta”: entrincheirar-se ainda mais nos seus condomí­nios rodeados de alarmes electrónicos e pagar a mais polícias para os defender. Enterrados no seu mundo virtual.

A diferença – Numa coisa estão de acordo pombas e falcões (até o PCP e o BE!): há que punir os terroristas! Talvez vos pareça uma reivindicação obrigatória mas é obscena. Acaso já foram punidos os governantes que vêm matando, há déca­das, sem interrupção, milhões de seres humanos inocentes por todo o mundo?

É que, explicam-nos, “pode haver de facto certas injustiças a corrigir”, mas esse é um problema de outra ordem.

E têm razão: a diferença é entre terroristas legalizados e não legalizados, terroristas industriais e artesanais, terroristas por grosso e a retalho. Inscrevam-se no primeiro grupo e po­derão impunemente subjugar continentes ou lançar bombas atómicas sobre um país à beira da capitulação.

O furor dos falcões – Ao embate do pânico, revelou-se de súbito a fibra adormecida do nosso campo “democrático moderado”. Embriagados pela revelação da causa sagrada do “nosso modo de vida ameaçado”, uma plêiade de militantes veio para os jornais e televisões reclamar, em pose marcial, mão firme contra o inimigo, vigilância sobre os vacilantes, apoio incondicional ao “grande irmão”. Sujeitos que quinze dias antes não poupavam as críticas ao comporta­mento arrogante dos EUA perceberam o que estava em causa e escolheram instantaneamente o seu cam­po. Centristas ou socialistas, pepedês ou apartidários – todos lacaios do imperialismo, apostados em ins­talar a histeria para paralisar qualquer objecção.

Quem não se portou à altura da consterna­ção universal de encomenda foi o homem da rua. Chocado pela catástrofe humana nas torres, sim, mas sem esconder o gozo pela humilhação infligida ao superpolícia e deixando escapar, a meia voz, a reflexão óbvia: “Quem vai à guerra dá e leva”.

A cerimónia dos minutos de silêncio foi só ence­nação para os telejornais. Ninguém aderiu. Por insensibilidade? Não, por espírito de justiça. Alguma vez se ouviu falar em minutos de silêncio pelos civis inocentes da cidade do Panamá, pelas crianças iraquianas ceifadas pelo embargo, pelos jugoslavos sacrificados aos jogos estratégicos da NATO? E isto não é “outro assunto”, como alegam os elegantes analistas – este é o verdadeiro fundo da questão. Porque aqueles que ber­ram contra o “crime hediondo cometido contra toda a humani­dade” estão a dizer, muito simplesmente, que os milhões de mortos deixados pelo mundo fora pelos americanos não tiveram grande importância. Começam a sentir-lhes o peso.

Pombas manhosas – O ambiente tornou-se tão histérico que reaccionários de sólida reputação como Freitas do Amaral ou Mário Soares fizeram figura de “pombas”. Até a muito cató­lica Lurdes Pintasilgo e viu admoestada pela sua falta de firme­za. E, no entanto, o que disseram? “Deitaram água na fervura”, aconselharam contenção, legalidade e prudência. Em parte por receio das retaliações dos fundamentalistas. Mas sobretudo porque se inserem na manhosa corrente europeísta, a qual procura tirar partido da crise para se afirmar como alternativa “sensata” e “humanista” ao brigão americano. Repararam como a NATO, depois de todas as juras de solidariedade total aos EUA, ficou de fora da operação? Sob a cortina da unani­midade do “mundo livre”, as contradições entre os salteadores acentuam-se.

Frankenstein – Com estes talibãs, tal como com o UÇK, Saddam, Noriega ou McVeigh, os EUA entram em conflito com os monstros que criaram. De facto, a CIA é a maior produtora de inimigos da América. Apostaram na carta talibã para afogar cm sangue as transformações progressistas que se desenhavam no Afeganistão. Depois os talibãs foram óptimos para matar na Argélia, no Kosovo, na Tchechénia. Mas agora o cão de guarda enlouqueceu, tem que ser abatido. E a única solução “viável” é dar mais força ao Paquistão, regime ditatorial, san­grento e detentor de armas atómicas – a CIA está já a fabricar o próximo monstro que amanhã pode desafiar o seu criador.

O saldo – Aqui na Europa, depois de assentar a poeira das lamentações compungidas, dos conselhos de contenção, dos apelos a que se acuda ao sofrimento dos povos oprimidos, restará o concreto – apuramento e coordenação dos serviços de informações, das escutas telefónicas, infiltração nos movi­mentos de contestação e resistência, orçamentos mais genero­sos para a repressão. Só se fossem tansos – o que não são – iriam os governantes europeus desperdiçar este pretexto para avançarem na montagem de um serviço de espionagem à altura das necessidades do império em construção.

O espectáculo continua – Enquanto se espera a opera­ção redentora do orgulho da grande América, dois milhões de afegãos famintos e esfarrapados fogem pelas estradas, no terror dos bombardeamentos. É só o prólogo mas o espectáculo pro­mete a grandiosidade habitual.

Dizem as sondagens que, de toda a Europa, os portu­gueses são os menos dispostos a “marchar, ombro a ombro, com os nossos aliados”. Bem bom. Mas não chega. Esta guerra pode parecer longínqua mas é também connosco. Cada dia que se perca na luta contra a nova guerra criminosa dos EUA aumentará os perigos para todos nós.

Proposta para acção conjunta contra a guerra

O colectivo da “Política Operária” enviou, em 17 de Setembro, a carta abaixo reproduzida a um grande número de agrupamentos e personalidades de esquerda. Até ao fecho deste número (3/10), apenas registámos um número muito limitado de respostas positivas. Manifestamos a nossa disponibilidade para colaborar em quaisquer iniciativas que visem uma efectiva acção de massas contra a guerra imperialista.

É o seguinte o texto da carta enviada:

 “Caros Companheiros:

Perante a nova situação internacional resultante dos atentados de 11 de Setembro e da retaliação militar que preparam os Estados Unidos, e dada a obediência do governo português às ordens da NATO, impõe-se a busca urgente de um acordo para formas de intervenção comum das forças de esquerda. Também o agravamento constante da situação na Palestina exige formas de solidariedade que têm tardado demasiado.

Neste sentido, propomos a realização no mais breve prazo de um encontro entre represen­tantes da vossa organização e o nosso colectivo, para se estudar a convocação de uma reunião alargada de onde possa sair uma comissão dinamizadora de acções comuns.”

 “Secretas” deitam mãos à obra

A notícia veio numa página interior dos jornais, discreta, uma semana depois dos atentados, e não suscitou comentários: “Governo convocou as ‘secretas’ para estudar medidas”. Podem crer que não foi uma reunião de rotina. Maior coordenação entre a secreta militar (SIEDM) e a civil (SIS) e medidas a tomar pelos vários ministérios foram temas analisados, incumbindo natural­mente um papel especial na coordenação das tarefas ao ministro da Administração Interna, Rui Pereira, ele próprio ex-chefe do SIS.

O encontro foi convocado de urgência porque era preciso apresentar trabalho no dia seguinte, na reunião extraordinária dos ministros da Justiça e da Administração Interna da União Europeia destinada a “harmonizar medidas de combate ao terrorismo”.

E as primeiras “correcções” da lei começaram de imediato: aprovadas as buscas nocturnas (só por causa da droga!), aprovada a extradição para países onde se aplica a prisão perpétua, colabo­ração na criação do mandado de captura europeu, “acções enco­bertas” e “agentes infiltrados”.

Mas o principal, nesta matéria, é o que não sai nos jornais. Não haja dúvidas de que os ficheiros já começam a ser actualizados, o que significa contratar mais espiões, analisar a propaganda “dissolvente”, montar escutas, infiltrar organizações “suspeitas”…

Como explica o comissário António Vitorino, “não podemos tornar-nos uma zona-refúgio de terroristas”. Se quer merecer o seu lugar na Europa, Portugal tem que acompanhar a passada.

Nem por encomenda, uma sondagem veio garantir que “os portugueses admitem a limitação das liberdades para combater o terrorismo”.

Não será hora de activar órgãos populares de defesa das liberdades?

Política Operária nº 81, Set-Out 2001

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