O triunfo dos padres

Francisco Martins Rodrigues

A CENA DOS BISPOS em torno da lei da Rádio foi de uma arrogância tão descarada que a UDP achou neces­sário recorrer aos grandes meios e pagou uma página de publicidade num jornal para criticar… a falta de qualidade apostó­lica dos programas da Rádio Renascença!

Que a UDP, que apesar de tudo ainda faz o papel de extrema esquerda no leque partidário, se sinta na obrigação) de invocar os princípios do catolicismo para poder cri­ticar os padres, eis o que dá a medida da miséria a que chegámos neste problema.

Porque a UDP não faz mais do que apli­car, de maneira particularmente tola e oportunista, a táctica herdada do velho PCP para a questão religiosa. No PCP ensinavam-nos como uma verdade evi­dente que a propaganda anti-religiosa e anticlerical não passava de infantilismo anarco-republicano, de manifestação gra­tuita de irreverência pequeno-burguesa radical. Os comunistas não se metiam nessa falsa guerra, que só servia para cavar divisões entre crentes e não-crentes, des­viar o golpe do verdadeiro inimigo, o apare­lho de Estado burguês.

Convenceram-nos que a propaganda anti-religiosa era oposta à táctica leninista de frente única contra o capital. E o que ensinava a táctica de frente única, na opi­nião destes novos “leninistas”? Os crentes podiam ser ganhos para a luta de classe desde que nos abstivéssemos de ataques “sectários” à religião; os padres podiam ser sensibilizados para a denúncia das injusti­ças sociais, dada a sua origem humilde; os bispos só deviam ser criticados na medida em que apoiassem a ditadura, e tendo sem­pre o cuidado de mostrar a contradição entre o seu alinhamento político e os prin­cípios evangélicos; o problema da crença religiosa, enquanto questão filosófica, devia ser deixado à margem da política, adiado, esquecido.

Assim, por uma escadaria de castrações sucessivas, estreitou-se a crítica à religião na crítica à Igreja, a crítica à Igreja na crí­tica à hierarquia, e esta na crítica aos bis­pos “maus”, que não serviam devidamente os princípios religiosos.

Esta “hábil” táctica de mão estendida estava toda errada. Tanto que permitiu à Igreja preservar intacta a sua influência depois do abalo provocado pela queda da ditadura e retomar a ofensiva em toda a linha nestes últimos anos.

A sua rede de pressões é tão vasta que consegue fazer esquecer o papel tenebroso desempenhado durante meio século como pilar do fascismo. Todos os dias nos vendem historinhas sobre a luta titânica do bispo do Porto contra Salazar, a oposição de Salazar ao Patriarcado, os bispos anticolonialistas que desafiavam o regime… e não há uma palavra para lembrar os milha­res de padres que diariamente, ao serviço do aparelho, pregavam o respeito pela “autoridade legitima” e esbravejavam con­tra o “comunismo ateu”, completando o trabalho dos pides.

Mas não só isto. Ao deixar o campo livre às crendices religiosas, às superstições mais aberrantes e embrutecedoras, como é o espectáculo degradante de Fátima, tudo para “não ofender os sentimentos dos crentes”, só o que se conseguiu foi estreitar cada vez mais o campo do materialismo, facilitar a desfiguração da luta de classes em chochas pregações de moral cristã, matar o espírito de revolta, reduzir o campo da revolução, alargar o espaço ao reformismo.

Passar a propaganda do materialismo à clandestinidade não foi uma mera manobra táctica nem sequer um erro. Foi um dos aspectos da grande capitulação que levou os comunistas a abandonar os seus objec­tivos revolucionários, um a um, na ilusão oportunista de tornar a revolução mais fácil. Ganhar aliados à custa de desistir da revolução — que grande esperteza!

Mal sabem os militantes do PCP o triste papel de parvos que andam a fazer quando comentam, com um sorriso entendido, que a propaganda anti-religiosa “era o que eles queriam”, “se não falarmos na religião, ela desaparece por si”. Vê-se…

O ataque ao aparelho de estado bur­guês, para ser eficaz, não impede mas exige o desdobramento diário da propa­ganda e da agitação numa grande varie­dade de frentes. O ataque à Igreja, enquanto aparelho especializado de acorrentamento ideológico das massas, não dispersa forças no combate à burguesia; pelo contrário, enriquece o leque da acção revolucionária.

Que fazer então? Vamos lançar-nos em “guerras religiosas”, atacar as procissões, rejeitar a acção comum com os trabalhado­res crentes? Argumentos absurdos, tudo isto.

Queremos a frente única, que significa a cooperação em pé de igualdade entre cor­rentes políticas e ideológicas diferentes para um objectivo imediato comum. Que­remos uma aliança de luta livremente con­sentida e não uma capitulação disfarçada com frases melosas.

Ou seja, reconhecemos aos católicos o direito de praticarem e propagandearem a religião, mas na exacta medida em que não nos privemos do nosso direito de praticar propagandear o ateísmo, o materialismo militante.

E não nos venham com a história do “respeito”: se ao dizermos que a religião é um ópio paralisante do povo ferimos os sentimentos dos crentes — acaso não ferem eles diariamente os nossos senti­mentos ao praticar toda a espécie de superstições?

Política Operária nº 9, Mar-Abr 1987

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s