Zapatistas aplaudidos ou o amor da burguesia pelos derrotados

Francisco Rodrigues

Em resposta a um questionário do Jornal de Letras a propósito da recente marcha zapatista sobre a cidade do México, o director da P. O. enviou o seguinte comentário: 

Fala-se, a propósito do zapatismo, em “nova esquerda”. Parece-me tratar-se antes de uma esquerda tímida, mesmo raquítica, de modo nenhum à altura do grandioso movimento popular que represen­ta.

O estilo poético de Marcos, que tanto enlevo causa na Europa, não é só politicamente ambíguo; expri­me uma castração, bem resumida na sua declaração ao entrar na cida­de do México: “O problema não está em conquistar o poder mas na rela­ção dos cidadãos com o poder”. Pre­tendem alguns encontrar uma pro­fundeza excepcional naquilo que é na realidade a expressão de um reformismo, hoje ingénuo, amanhã talvez acomodado. Porque os di­reitos de cidadania dos camponeses índios que Marcos reivindica, se não forem ganhos em luta aberta contra o poder instituído acabarão por servir de bandeira à ascensão de uma nova franja burguesa – veja-se o que sucedeu ao movimen­to negro nos EUA. É nesse caminho que o presidente Fox procura levar os zapatistas. Há boas razões para recear que o momento de glória actualmente vivido pelo zapatismo prenuncie derrotas amargas para os índios em cujo nome fala.

A fonte da popularidade inter­nacional do zapatismo é justamente essa sua postura de audácia ordei­ra de raiz cristã. Daí a sedução que exerce sobre certos meios progres­sistas europeus que aspiram a dis­putar aos EUA uma parte da influ­ência sobre a América Latina (e, claro, dos seus mercados) e que na mesma linha inspiraram o recente Fórum de Porto Alegre. É sintomá­tico que o carinho e a projecção mediática que rodeiam o zapatismo não se estendam a movimentos po­pulares bem mais massivos e efica­zes, como o que já libertou vastas áreas da Colômbia ou o que desde há dois anos abala o Equador, ou o das ocupações de terras no Brasil. A burguesia progressista sempre sentiu uma simpatia enternecida pelos rebeldes inócuos.

A verdade é que há um verda­deiro abismo a separar o audacioso guerrilheirismo de Guevara da “guerrilha sem espingarda” de Mar­cos. E o surgimento de Marcos a corrigir Guevara só se entende porque entretanto o movimento popular latino-americano foi afo­gado em sucessivos banhos de san­gue orquestrados pelo Big Brother americano (Argentina, Chile, Bra­sil, Uruguai, Salvador, Guatemala, Nicarágua, Colômbia…).

São de prever, mesmo assim, revoluções (isto é, derrubamentos violentos da burguesia) no século XXI? Sem dúvida. A mesma doença requer a mesma cura. O sis­tema capitalista entrou numa fase terminal, que está aí à vista de todos e os seus avanços tecnológi­cos ditam a sua ruína porque exer­cem uma pressão irresistível para passar a formas sociais modernas. Os vindouros olharão com espanto e piedade o pântano sangrento que hoje forma o nosso dia-a-dia. É por isso que prometer liberdade e democracia dentro deste horror é servir ópio ao povo.                                          

Política Operária nº 79, Mar-Abr 2001

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